GHETTO é música para ouvir

Publicado: 11/06/2010 em Estradas de Silêncio e Sonhos
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10/06/2010

Ontem foi um dia desses, peculiar e poético, cada vez mais raros de se presenciar. Apenas quando se está muito atento é possível perceber.

Um pouco antes de sair do aconchego da minha casa, no frio de outono que eu tanto adoro, um amigo me enviou um vídeo com a escritora africana, contadora de histórias, Chimamanda Adichie. O depoimento dela sobre o perigo de uma história única nesta convenção é de uma integridade, sabedoria e de uma clareza de raciocínio incríveis e ela termina citando a escritora americana Alice Walker e complementa com o seguinte pensamento: “Quando rejeitamos a história única, quando nos apercebemos que nunca há uma história única sobre nenhum lugar, reconquistamos uma espécie de paraíso”.

Depois de ver dezoito minutos deste depoimento apaixonante fui para o Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional assistir a peça Ghetto. Foi aconchegante desde o início, quando ainda no hall encontrei antigos amigos e revi pessoas que passaram por minha vida e há muito já não encontrava.

Ghetto foi escrito por Zvi Kolitz e conta a história de Yossel Rakover, que viveu no Gueto de Varsóvia sob a repressão e crueldade nazistas, perde sua família para as atrocidades e se depara diante de sua fé e sua crença. Uma forma muito simplista de resumir a história, mas o mais importante aqui é falar sobre a montagem de Ghetto, sua construção artística. A princípio diria: mais uma história sobre o holocausto, já vimos isso ser contado diversas vezes. Aí seria uma forma ignorante de falar sobre a história real, sobre a experiência de uma catástrofe que se perpetuou nos gens de seus descentes. Que bom que pude me sentar na platéia com o pensamento de Chamamanda Adichie ainda reverberando em meus pensamentos e me abrindo totalmente para Yossel Rakover. Não era só mais uma história sobre o mesmo tema, era a história de como Zvi Kolitz pode expressar o que viu e o que viveu e como ela foi traduzida pela direção, interpretação e concepção artísticas ali presentes. Escolhas foram feitas, essas escolhas de como contar esta narrativa, este personagem, deixam de ser uma história única, passa a ser uma dentre várias outras, mais um pedaço do ocorrido que me chega ao conhecimento.

Com uma direção simples e poética, Elias Andreato, coloca em foco apenas o que nos interessa: o contato com aquele homem, seu depoimento, suas impressões, seus questionamentos e suas reflexões. Que são as deles e também podem ser as nossas. Marco Lima nos traz um pedaço do que acredito deva ser a exposição hoje presente entre os muros de Aschwitz, os sapatos de tantos outros personagens que não puderam se fazer ouvir, o cenário/instalação é de uma beleza e também angustiante de ver, mas as memórias nem sempre são reconfortantes, não é mesmo?

Em cena o ator Fábio Herford, que via apenas em grandes comédias, se desnuda dos estereótipos e nos traz Yossel Rakover. Sem emoções exageradas, ele nos apresenta o personagem com a poesia das palavras do autor. Ele também parte da instalação como tela inicial para as imagens que serão contadas no decorrer da peça, ele como narrador de uma fé em questionamento e que traz a minha identidade, as minhas questões de cre

nça e reflexão. Perguntas que sempre me atormentam como saber por que em nome de um Deus os homens exterminam outros de sua espécie? Que Deus é esse que permite algo tão devastador? Isso é ser humano? Não, não acho que seja! Intolerância, vemos essa história se repetindo todos os dias em noticiários ou na vizinhança.

Então, o ator senta-se ao piano e mais um personagem nos é mostrado, a música. Os dois permitem que nossa alma compreenda as palavras que foram ditas. Na música, composta por Fábio Herford, sinto a dor, a perda, a revolta, a esperança, o amor, a libertação e me vem uma vontade de ficar em silêncio no escuro do teatro depois que as luzes se apagam, absorvendo aquelas notas musicais e as imagens em chamas e a fila de sapatos de personagens que reconstruí na minha imaginação, donos das histórias que não tiveram voz.

Termino citando mais uma vez Chimamanda Adichie:

“As histórias importam. Muitas histórias importam. As histórias têm sido usadas para desprover e tornar maligno. Mas as histórias também podem ser usadas para potenciar e humanizar. As histórias podem quebrar a dignidade de um povo. Mas as histórias também podem reparar essa dignidade quebrada.”

Bom que pude ter a poesia percorrendo meu dia, simplesmente porque me abri para ela.

Abaixo os links de Chimamanda Adichie e da peça GHETTO:

http://www.ted.com/talks/lang/por_pt/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html

http://espetaculoghetto.com/

Link original:

http://estradasdesilencioesonhos.wordpress.com/2010/06/10/112/

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